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“Untitled # 21 from The Seventh Wave”. Fotografia de Trent Parke.1999-2000.

Fosse eu rio
caudal majestoso
de silêncio e morte
o corpo transmutado
num tropel de espuma
e entraria em ti
para sair ufano
do aperto do leito.

Fosse eu rio
e fui-o
que este travo na boca
não desmente
o frio dos seixos
enrolando-me a língua
e estas mãos leriam
insones
a suavidade vertical
do teu desejo.


Fosse eu rio
matéria do tempo travestida
e talvez compreendesse
a intimidade da sombra e do prazer
como a pálpebra compreende
e desposa
a natureza líquida do pranto.


“Aka Ana. Japan”. Fotografia de Antoine D’Agata. 2006.

O resguardo dum colo
o calor das faces
após tanto volteio
e teu jeito marinheiro
de sulcar o instante.

A quietação crepuscular
e a voz rara
obsidiante
que me penetra
quando invado o teu segredo.

A vida e a morte coleando
distraídas dos nossos tentames
e a noite apoderando-se dos corpos.

Razões sobejas
para morrer feliz.

*Num post publicado a 29 de Abril de 2007 dizia eu, em rodapé: “Um poema é sempre a figuração, mais ou menos evidente, de um “diálogo” (íntimo, com o Outro ou com/contra uma tradição literária)”.
“Volteio” inscreve-se nessa “(…) história de “interleituras”, intertextualidades e cumplicidades” (…) a que aludia e é, passe a pretensão, uma reacção à “fisicalidade” patente em “O Sol” e sempre presente na escrita de Sílvia Chueire.


“Morocco #2″. Fotografia de Pep Bonet. 2008.

Cai uma chuva de outro tempo.

Contemplo a nudez desta árvore.
Ainda que o seu brilho lustral
domine o olhar
a métrica perfeita das gotas
resvalando na carne
devolvem-me à própria nudez.

A noite coagula
num ramo de rosas negras.
Como se as palavras
fossem a cifra de uma ausência
e nos estivessem pensando
do outro lado do sono.

Chove.

Cá dentro
um animal furtivo
continua a uivar
o seu ofício de sombras.

 
“Modernist Nude #2″. Fotografia de Yoshiyuki Iwase. 1955.

Ignoro o capricho que te leva
a altear o peito
quando me olhas
e o momento
em que a lágrima desce
furtiva
as espiras do cerebelo.

Algo na penumbra me revela
que durante essa viagem
forças afins à noite
e ao movimento dos corpos
se entretêm a semear
a urgência de cruzar meridianos.


“Shake Hands”. Técnica mista sobre tela. Xue Song. 2001.

Li algures
que um poema
pode transformar-se
numa máquina de produzir
anti-História.

Dei por mim a pensar
que pela mesma ordem de ideias
se adaptado
o seu mecanismo poderia produzir
a negação da Geografia
tal como a conhecemos
e em última análise
a subversão
de todo o Saber instituído.

Accionando tal engenho
com muita arte
e alguma ciência
seria possível desnomear
e renomear
tanto as paisagens familiares
os arquivos e as taxinomias
mais insólitas
como as terras ignotas
do Conhecimento
que dormem à nossa espera.

O que não deixaria de provocar
um terrível abalo
nas arreigadas convicções
de artistas em germe
sábios de carreira
já confirmada
e candidatos
a chefes de governo
gentes para quem
um punhado de certezas
é mais importante
do que a prodigiosa
produção de novos sentidos
que o referido mecanismo
proporcionaria.

Imagine-se sobretudo
o que aconteceria
em termos de jurisdição
com a confusão monumental
que tal dispositivo
poderia gerar
nos ainda frágeis espíritos da
Humanidade.

Pelo sim
pelo não
alguém deveria
prevenir as autoridades.

Se nos tiram a segurança
do que aprendemos
a tão duras penas
onde é que o mundo
vai parar.

* Tibete, oh Tibete…


“Room with Two Windows”. Óleo sobre tela. Ken Currie. 2004.

“(…) É uma verdade que nos serena, sabermos que somos variações da luz. Sabermos que esta frase é uma imagem não sendo um metáfora, e que o nosso tempo corre entre uma e outra, por ignorância nossa (…)”

Texto de Maria Gabriela LLansol respigado no blogue “Espaço LLansol”. A celebração possível de uma criadora ímpar.
Tocante evocação de MGL aqui: fworld.

“Vigil”. Água-forte. Ken Currie. 2005.

Chão nocturno este
onde nos debatemos
desesperando suavemente
sobre o verde esquecido dos líquenes.

Leito paradoxal.
Um roseiral avança
numa confusão de pétalas
e nada mais importa.


“Ahead”. Fotografia de Joerg Maxzin. 2007.

A tarde cai-me do olhar
e ocupa agora o côncavo das mãos.

O vento de ontem sopra ainda
no entrançado dos teus cabelos
e há um trilho estreito
entre a minha boca e a tua nudez.

O fragor rubro de uma flor
explode-me no peito
e a língua acorda brisa
e regato
e luz.

A saudade baila à nossa frente
e a tua silhueta de ave
eleva-se nos ares
vagamente circunflexa.

Volto as costas ao dia.
Lembro os teus lábios
e um rouxinol sedento de sangue
gorgeia-me na voz.


“God’s Silence”. Gouache and thorobond on panel. Michael Behle. 2007.

Regresso outra vez
do silêncio insone da sombra.
Noiva zelosa
a noite oficia o seu ritual
com o desvelo de sempre
e ignoro se é o negro imperial do firmamento
a invadir-me inteiro
ou se continuo
um acidente estelar
sem gravidade.

Não sei se vivo mas persisto
o peito feito ao vagaroso gotejar dos dias
e uma ilusão de transcendência
ensaiando variações
no lugar da alma.

Já não reconheço
os contornos da madrugada.
O código opaco a que chamam loucura
talvez espere a chegada da tarde
ou a claridade fulgurante dos agostos
que ainda trago em mim.

Avanço e abraço incerto
a figura de um coração
ícone distraído da minha errância.

Durmo desalmado.
Deixo-me embalar
pelo rumor ausente do mar
e abandono a metafísica
à sua sisudez.


“the whole world”. Fotografia de Aeric Meredith-Goujon. 2008.

Vi a substância rósea da manhã
e a graça das pétalas tombadas.
(Tudo é augúrio).

Vi a rosa abraçada à própria morte.
(Um perfume de vertigem e esquecimento
impregna o tempo de um lamento).

E senti o vento
sopro de uma sílaba inelutável
desposando o rumor doce
das pétalas caindo.
(Tudo é presságio).

A rosa diz sem dizer
numa língua urdida
de verão e noites estreladas.
(Tudo está na atenção
e nada mais importa).