
“Shake Hands”. Técnica mista sobre tela. Xue Song. 2001.
Li algures
que um poema
pode transformar-se
numa máquina de produzir
anti-História.
Dei por mim a pensar
que pela mesma ordem de ideias
se adaptado
o seu mecanismo poderia produzir
a negação da Geografia
tal como a conhecemos
e em última análise
a subversão
de todo o Saber instituído.
Accionando tal engenho
com muita arte
e alguma ciência
seria possível desnomear
e renomear
tanto as paisagens familiares
os arquivos e as taxinomias
mais insólitas
como as terras ignotas
do Conhecimento
que dormem à nossa espera.
O que não deixaria de provocar
um terrível abalo
nas arreigadas convicções
de artistas em germe
sábios de carreira
já confirmada
e candidatos
a chefes de governo
gentes para quem
um punhado de certezas
é mais importante
do que a prodigiosa
produção de novos sentidos
que o referido mecanismo
proporcionaria.
Imagine-se sobretudo
o que aconteceria
em termos de jurisdição
com a confusão monumental
que tal dispositivo
poderia gerar
nos ainda frágeis espíritos da
Humanidade.
Pelo sim
pelo não
alguém deveria
prevenir as autoridades.
Se nos tiram a segurança
do que aprendemos
a tão duras penas
onde é que o mundo
vai parar.
* Tibete, oh Tibete…